‘No início do séc. XVI os judeus sefarditas em Portugal eram 20% do total da população’

José Oulman Bensaúde Carp está a cumprir o seu 6.º mandato como presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, que tem o seu cemitério na Penha de França. Uma entrevista em que fala sobre a antiga e riquíssima história dos judeus em Portugal, da qual é protagonista a sua família. Leia, abaixo, a versão completa da entrevista publicada na revista Penha.

No final de setembro foi celebrado o ano novo judaico, o Rosh Hashaná. Em que ano estamos no calendário judaico? 

Estamos em 5780.

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Qual é a diferença para o calendário civil, gregoriano, usado em Portugal? 

O calendário judaico segue os ciclos da lua e todos os anos muda um ou dois dias em relação ao calendário gregoriano.

O calendário judaico começa com o nascimento do primeiro homem? 

Sim, com o nascimento de Adão e Eva.

Em meados de Outubro festejou-se a festa mais importante do judaísmo, o Yom Kippur. Pode explicar o seu significado?

Yom Kippur é a celebração mais sagrada do ano, são os dias do grande perdão. Tem uma origem bíblica: após um pecado de idolatria, Moisés intercedeu a Deus, que perdoou os judeus. Pedimos perdão a Deus e a todos com quem convivemos para que nos perdoem o que teremos feito de errado. São dois dias passados na sinagoga com muitas orações e com um ritual que é próprio à ocasião do Yom Kippur. 

Em Dezembro, será a vez da festa da Hanukkah, a festa das Luzes. O que se comemora nesta festa? 

Hanukkah é uma festa muito bonita, muito bonita. Gosto muito de Hanukkah porque todos os dias temos uma Hanukkah nas nossas vidas. Nos tempos antigos, Israel foi muitas vezes atacada, às vezes ocupada. Numa dessas vezes, os assírios e os helénicos atacaram o reino de Israel: eram politeístas e os judeus eram monoteístas - aliás são a primeira religião monoteísta - e tentaram converter os judeus à força ao politeísmo. Um ramo da família dos Macabeus, Judah Macabeu e filhos, formou um pequeno exército e combateu os helénicos e os assírios, derrotando-os. Para celebrar essa derrota judeus foram ao Templo, procuraram azeite para acender o Candelabro do Templo – Menorah – encontrando apenas a quantidade suficiente para um dia, mas ardeu durante oito dias o tempo suficiente para trazer mais azeite. Daí o milagre da Luz e, para o celebrar, em cada um dos oito dias festa acende-se uma vela. Foi um acontecimento muito importante porque foi aí que se estabeleceu definitivamente a identidade judaica. 

É uma festa muito apreciada pelas crianças? 

Sim, há uma festa muito bonita na Comunidade Israelita, orientada especialmente para as crianças. Há uma peça de teatro, as crianças recebem presentes. É uma festa muito bonita e, especialmente, alegre. 

A Páscoa cristã deve o nome à Pessah, a Páscoa judaica. As duas religiões têm elementos em comum?

Temos muitos elementos em comum, Jesus era judeu, pois partilhamos o antigo testamento. Temos uma base cultural comum que não partilhamos com outras religiões. Em tudo o que tem a ver com a prática, tudo o que é ritual, temos muito em comum com a religião muçulmana. Por exemplo a circuncisão, a comida (nós comemos casher, os muçulmanos comem halal [alimentos permitidos pelas leis judaica e muçulmana, respetivamente]), os enterros (as pessoas são envolvidas em panos de linho e enterradas diretamente na terra), a separação de homens e mulheres nos templos, não ter imagens nos templos. O judaísmo partilha muito com a religião cristã, a segunda religião monoteísta mais antiga, e depois com a muçulmana, mais recente. 

O que é a Comunidade Israelita?

A nossa comunidade é pequena, de tradição sefardita e asquenaze. Celebramos as festas judaicas, promovemos as nossas tradições, o nosso folclore, a nossa cultura, temos um cemitério, realizamos o ritual dos enterros, temos um clube e um movimento de jovens, o Dor Chadash, e também há pessoas dedicadas ao ensino dos jovens. Promovemos tudo o que tem a ver com uma comunidade judaica.

O que são os asquenazes e os sefarditas?

O Reino de Israel e a Judeia foram ocupados pelos romanos, que declaram guerra aos judeus, mudaram os nomes de toda a região e chamaram-lhe Palestina, tal como fizeram quando ocuparam a Península Ibérica. E acabaram por expulsar os judeus, que muitas vezes eram levados com os legionários. Os judeus que foram levados para a Europa Central e do Norte, espalhados por todos esses territórios, eram os asquenazes. Quando os romanos ocuparam a Península Ibérica, que nessa época em hebraico se chamava Sefarad, os judeus que para aqui vieram passaram a chamar-se sefarditas. Aliás, os romanos eram politeístas, casavam com judias e não se importavam que os filhos fossem judeus, por isso, no território de Portugal, as primeiras pequenas comunidades judaicas eram romanas, as dos filhos dos legionários. Em termos culturais há pequenas diferenças entre estes dois ramos: os rituais, as sinagogas são ligeiramente diferentes.

Voltando um pouco atrás, o cemitério dos judeus, como é conhecido, está localizado na Freguesia da Penha de França há mais de um século, certo?

Sim, desde 1868. Está lá a minha família e praticamente todos os membros da comunidade têm lá alguém que descansa. Houve um cemitério anterior, de 1801, na Estrela, mas que está fechado.    

Nessa altura, mesmo antes do fim oficial da Inquisição, em 1821, os judeus já tinham voltado a Portugal?

Os primeiros judeus sefarditas retornaram a Portugal no princípio do século XIX. A minha família, neste caso os Bensaúde, veio de Marrocos e estabeleceu-se nos Açores em 1818, antes do fim da Inquisição. E porquê aos Açores? Porque lá também havia leis inquisitoriais, mas os açorianos fechavam os olhos e não ligavam muito a essas coisas. Os judeus chegavam, eram ativos, desenvolviam o comércio...  18 anos depois de chegarem fundaram a sinagoga, que é muito bonita e que num belíssimo trabalho foi restaurada em 2015, com financiamento da comunidade açoriana emigrada nos Estados Unidos da América. Apesar de não serem judeus, consideram que a sinagoga faz parte do seu património. Acho extraordinário, muito bonito! 

Aliás, na mesma senda, a sua família veio para os Açores com a ajuda de um muçulmano?

A história que sei é que saíram de Marrocos com os documentos de um muçulmano chamado Ben Saud, que os ajudou. Há outras versões. O que tenho a certeza é que a minha família se chamava Assiboni e cá ficou Bensaúde.  Em Marrocos, muçulmanos e judeus eram vizinhos - houve alturas em que se davam melhor, outras vezes menos bem, outras muito bem. Regressaram a Portugal porque sentiram que já havia condições para voltar.

A sua família tinha fugido da Inquisição. Para onde fugiram da Inquisição os judeus portugueses?

Com a Inquisição houve muita conversão forçada, os chamados cristãos novos, e, dos que fugiram, os primeiros foram para Amesterdão e depois espalharam-se pelo sul da Europa. Alguns estabeleceram-se na Itália, outros foram para o Império Otomano, hoje Turquia, chegaram à Síria e à Palestina, que à época fazia parte do Império Otomano. É curioso que os judeus de Alepo são quase todos de origem portuguesa, enquanto que os de Damasco são judeus orientais. Mas também fugiram para Marrocos, na verdade havia mais judeus portugueses no Império Otomano do que em Marrocos, mas o curioso é que os únicos a regressarem a Portugal foram os sefarditas de Marrocos. Estas famílias é que fundaram a nossa comunidade, que se manteve 100% sefardita até à chegada dos refugiados russos da Revolução de 1917. E depois, mais tarde, vieram as pessoas que fugiam da ameaça do regime nazi e de toda a desgraça que depois aconteceu. Começaram a chegar em números cada vez maiores, muitos com os vistos passados pelo cônsul-geral, herói, Aristides de Sousa Mendes, e a comunidade fez um magnífico trabalho de acolhimento. Chegavam destituídos de tudo: de família, de bens, também com necessidade de apoio espiritual que depois encontraram na nossa sinagoga. Esses refugiados foram para residências fixas nas Caldas da Rainha, na Ericeira, em Sesimbra, em Santarém, na Figueira da Foz, na Praia das Maçãs e noutros locais mais perto de Lisboa, e tinham que apanhar o primeiro barco para outro destino, que geralmente era o Brasil, a América Central ou os Estados Unidos. 

Houve alguns que ficaram?

Algumas famílias conseguiram ficar e depois outros vieram já depois da II Guerra Mundial: ou para se juntar às famílias que já aqui estavam ou, também, porque quiseram estabelecer-se em Portugal. Voltando um pouco atrás, o que é notável é que as tripulações desses navios eram portuguesas e enfrentaram grande perigo na travessia do Atlântico Norte e Sul, que estava cheio de submarinos alemães nazis e que afundaram alguns navios. Não se fala muito neles. Os refugiados chegavam a Portugal com medo, não só que eventualmente os nazis aqui chegassem, mas também com o medo da travessia, a ânsia de chegar ou não chegar ao destino. Era um sofrimento diário e constante.  A Comunidade tratava de lhes obter documentos, viagens, ajuda sanitária, médica, abrigos, tudo feito em conjunto com organizações judaicas americanas e a Cruz Vermelha.  

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Os primeiros judeus de Nova Iorque são portugueses?

Sim, mas do Brasil, do Recife, que na altura era uma colónia holandesa. Não foram diretamente daqui, na altura Nova Iorque era holandesa e chamava-se Nova Amsterdão. Há uma Sinagoga Portuguesa em Nova York, outra em New Jersey, há várias, feitas pela comunidade que foi para a Holanda ou para territórios holandeses. Na ilha de Curaçao, nas Antilhas Holandesas, há uma sinagoga portuguesa muito bonita, cujo modelo está no Museu de Israel em Jerusalém. O chão é todo de areia, em homenagem aos seus ancestrais que colocavam areia no chão para abafar os sons quando oravam às escondidas em Portugal. 

Em 2015 foi publicada a ‘Lei do Retorno’, que dá a nacionalidade portuguesa a quem prove ser descendente de judeus expulsos de Portugal. Já houve pessoas que o conseguiram fazer? A comunidade está a ser revitalizada?

Há pessoas que têm conseguido. Houve uma grande procura, uns por razões culturais, outros porque é sempre bom ter um passaporte europeu. Algumas pessoas que aqui se estabeleceram na sequência da lei, mas não é possível quantificar.

E há histórias emocionantes?

Sim, lindas, extraordinárias, complicadíssimas. A história de Sam Levy, por exemplo, o primeiro a regressar da Turquia, já há muitos anos. A família guardou a chave da casa em Portugal durante séculos. Era um homem de uma grande cultura, foi uma pessoa que marcou a nossa comunidade, presidente honorário da Comunidade de Lisboa.

Há a teoria de que quem tem nomes de árvores ou de animais é de origem judaica. Isso faz sentido?

Sim, faz todo o sentido porque na altura as pessoas só tinham o primeiro nome, tinham de adquirir um segundo nome de família, e adotaram nomes de árvores, de animais – casher, claro (risos). Haverá veracidade, mas não são só os nomes de árvores ou animais, porque havia judeus com todo o tipo de apelidos. Para saber se se é descendente de judeus sefarditas é preciso identificar o aspeto cultural, quando é que a família ainda praticava o culto, sinagogas e rabinos que possam atestar essa realidade, casamentos, campas, todo o tipo de testemunhos. São pesquisas que levam muito tempo, tudo isto é muito sério e de uma grande responsabilidade para a comunidade. 

Um estudioso desta realidade disse que é muito provável que a maioria dos portugueses tenham antecedentes judeus. 

Entre 1492, quando foi decretada a expulsão dos judeus dos Reinos de Castela e Aragão, e 1536, data do início da Inquisição em Portugal, cerca de 120 mil judeus sefarditas atravessaram a fronteira e estabeleceram-se em Portugal, onde já havia cerca de 80 mil judeus portugueses. Estavam na corte, eram cientistas, matemáticos, outros participaram nas Descobertas. A população portuguesa nessa época era de 1 milhão, portanto 200 mil judeus sefarditas em Portugal eram 20% do total da população. Depois houve as conversões forçadas, casamentos… A maior parte dos portugueses fica interessada e até curiosa quando digo que sou judeu. Ou porque têm uma bisavó, um tio avô que era judeu, ou outro antepassado de origem judaica, e dizem-no com algum orgulho, o que é completamente contrário ao que se passa no resto da Europa.

O matemático português Pedro Nunes tinha origem judaica, por exemplo, como o médico Garcia da Horta, ou mais recentemente o antigo presidente Jorge Sampaio…

Jorge Sampaio, meu primo. O José Bensaúde, filho do fundador da idade moderna da família nos Açores, casou com uma Raquel Bensliman, que é irmã da avó ou da bisavó do Jorge Sampaio. 

 Nos seus antepassados tem também um ‘símbolo da portugalidade’: Alain Oulman, o compositor de Amália Rodrigues…

Sim, o meu tio, irmão da minha mãe. Gostava muito da Amália e a Amália gostava muito dele. Alain fez os estudos em França e na Suíça, depois foi trabalhar para Nova Iorque. Tinha um dom para a música, para compor, para o piano, e compôs música para a Eartha Kitt, nos Estados Unidos, para o Yves Montand, em Paris. Em Portugal alguém apresentou a Amália ao Alain, no início dos anos 60, criou-se uma amizade e conjuntamente decidiram cantar os poetas portugueses – daí os textos de Camões, de Natália Correia, de Homem de Melo, de Ary dos Santos, de Alexandre O’Neill e outros. Iam lá a nossa casa, ensaiavam lá, conheci todos estes poetas contemporâneos. Quando vivi em Paris, ainda encontrei Amália algumas vezes em casa do Alain. Recordo-me que pouco tempo antes de falecer, o Alain deu-lhe uma pulseira que era da mãe, da minha avó, e ela, durante uma atuação no Olimpia, fez um gesto na pulseira dirigido para o Alain, que estava na primeira fila. É comovente. O Alain sempre recusou escrever música para qualquer outra pessoa, mas quem ficou com músicas inéditas suas foi o Camané. ‘Sei de Um Rio’ é uma composição de Alain, lindíssima. 

Os judeus portugueses tiveram uma participação importante nos Descobrimentos?

Sim, participaram muito nos Descobrimentos. A pergunta lembra-me uma história interessante: tenho cópias da correspondência do Joaquim Bensaúde, meu tio-bisavô, com Albert Einstein. Na altura – final do séc. XIX – os judeus não podiam frequentar universidades em Portugal e a minha bisavó e os irmãos estudaram na Alemanha.

As voltas que o mundo dá...

É verdade... Alfredo fundou o Instituto Superior Técnico, Joaquim era um historiador que só escreveu sobre as Descobertas, foi o primeiro presidente honorário da comunidade judaica e quem encontrou o financiamento para construir a sinagoga de Lisboa. Einstein foi o primeiro presidente da Universidade Hebraica de Jerusalém, fundada em 1925, a quem deixou tudo o que escreveu, todas as suas descobertas e pesquisas, um espólio vale milhões. Eu fui convidado para ser o presidente da Associação dos Amigos da Universidade Hebraica em Portugal, ainda estamos a constituí-la, e fui lá a uma conferência interessantíssima sobre a vida do Einstein que estava a ser dada pelo Professor Hanoch Gutfreund, que foi o presidente da universidade 20 anos e é o responsável pelos arquivos de Albert Einstein. No fim houve perguntas, eu disse que o meu tio-bisavô se tinha correspondido com Einstein e ele pergunta ‘como é que se chamava?’, disse o nome e dois minutos depois traz-me as cópias das cartas, estava tudo arquivado! Nas primeiras, Einstein já sentia o princípio do antissemitismo na Alemanha e consulta o Joaquim sobre a possibilidade de receber alguns colegas professores em Portugal, enviá-los para Coimbra. Mais tarde, Joaquim contradiz as teorias do Alexander von Humboldt, que defendia que os alemães estavam na origem dos descobrimentos marítimos portugueses.

Os alemães?

Sim, que tinham os mapas e a técnicas. Ora o Joaquim desfez completamente essa teoria e provou que tinham sido os portugueses. E o Einstein interessou-se por esta discussão – claro que tudo escrito em alemão, apesar de no fim haver uma parte em inglês. Entretanto, a minha prima, que ensina história na Universidade Hebraica de Jerusalém, escreveu um livro sobre Jane Oulman, a mulher de Alfredo, que era uma mulher interessantíssima: escritora, nasceu em Paris na alta burguesia judia francesa de finais do séc. XIX, depois foi para os Açores…

Não era a mãe de Alain Oulman?

Não, era tia-avó. A mãe do Alain Oulman era a Nicole Calmann-Levy, filha de Gaston Calmann-Levy, da Calmann-Levy, editora muito conhecida, a mais antiga em França, que publicou Vitor Hugo, Anatole France, Alexandre Dumas, Marcel Proust, todos os clássicos franceses. Gaston era do beau monde francês. Grande parte da família morreu nos campos. A minha avó escapou porque casou cedo com o meu avô, Albert Oulman, filho de Ester Bensaúde, e vieram para Portugal. O meu avô combateu por França em toda a primeira Guerra Mundial, na artilharia.

Aliás, mesmo na Alemanha houve muitos judeus a combater na I Guerra Mundial…

Houve sim, e um dos meus tios, o José combateu pelos Aliados na II Guerra Mundial – morreu aos comandos de um Spitfire poucos meses antes do fim da guerra. Sabe que os judeus na Alemanha ou na França consideravam-se alemães ou franceses antes de se considerarem judeus. Até ao Holocausto, claro. A partir daí tudo muda.

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Em 2012 nova reforma administrativa volta a reunir São João e Penha de França. É nesta altura que a Câmara Municipal de Lisboa reforça as competências das Juntas de Freguesias.

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