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“As bibliotecas são espaços democráticos”

Helena Pereira

Coordenadora da Biblioteca da Penha de França

 “As bibliotecas são espaços democráticos”

Helena Pereira trabalhava em ação social. Gostava muito da sua profissão e nunca pensou mudar de área. Até surgir o convite para ir para as bibliotecas. Era um mundo desconhecido, mas Helena tinha capacidade para aprender e foi.

Começou a trabalhar na Biblioteca de Alvalade em 2002. O espaço nem era dos mais atrativos, mas o convívio com o público atraiu-a desde a primeira hora.

Nessa altura começou igualmente a fazer formação na área para não ter que fazer as coisas assim, só porque sempre se fizeram assim.

Helena queria mais. E em 2009, quando veio para a Biblioteca da Penha de França, já era uma bibliotecária de corpo e alma.

 

O que é que mais lhe agrada no seu trabalho?

O atendimento ao público, o balcão de empréstimo. É aí que se apanha tudo: o que chega, o que as pessoas precisam, a importância que as bibliotecas têm para elas.

 

Nesse sentido, a biblioteca é também uma forma de ação social, ou seja, uma continuação do seu trabalho anterior?

É. Quando cheguei, as bibliotecas ainda eram um pouco fechadas. Eram estantes com livros onde havia muito poucas atividades com o público. Atualmente são espaços democráticos, onde as pessoas podem vir, estar,

conversar e onde há uma série de atividades vocacionadas para vários públicos e para as comunidades onde estamos inseridos.

E isso é que é importante. A biblioteca só é importante quando sai a porta para fora e vai ao encontro das necessidades da comunidade.

Senão, não vale a pena!

 

Se os miúdos entram na biblioteca de lábios cerrados e cabeça baixa, é muito mau sinal.

 

A sua biblioteca está longe se ser um templo sagrado do saber

Não é, não é. Há muitos anos, uma vereadora da Cultura, Rosalia Vargas, foi visitar a Biblioteca de Alvalade. As crianças que lá estavam falavam, falavam, falavam, então ela disse-me: “Não se preocupe, Helena, porque as bibliotecas não são igrejas.” E eu estou plenamente de acordo.

No entanto, os adultos nem sempre percebem isso. Aqui não temos esse problema porque os espaços estão fisicamente separados.

No espaço infantil, onde estamos, as crianças podem correr, saltar, brincar, falar. Se os miúdos entram na biblioteca de lábios cerrados e cabeça baixa, é muito mau sinal.

Ontem tivemos aqui uma turma de um jardim de infância. Vieram ouvir uma história. Eu estava no meu gabinete a trabalhar e fiquei encantada porque eles estiveram uns quinze ou vinte minutos,

a seguir à história, a descobrir a biblioteca, a ver os livros, e ouvia-se o som da felicidade destas crianças que não se queriam ir embora. A forma como se apoderaram da biblioteca, isso é que faz sentido.

Não vale a pena de outra maneira.

 

Quantas atividades cabem dentro desta biblioteca?

Acho que cabem todas, sempre que seja possível, e nós procuramos que sejam variadas. A pandemia trouxe retrocessos.

Esperamos que no final deste ano, ou seja, no início do ano letivo, possamos voltar a ter algumas atividades como o projeto Vidas e Memórias de Bairro, o Tricot Solidário que era muito importante.

 

Tricot Solidário?

Acontecia uma vez por mês. As pessoas vinham aprender a fazer tricot e esse tricot tinha como objetivo construir mantas de lã para oferecermos a instituições.

Ainda não foram oferecidas. Estão ali para serem entregues a uma associação de bebés e ao Centro de Dia.

 

No Clube de Leitura já tentámos voltar às sessões presenciais, mas as pessoas ainda preferem ficar em casa.

 

Há algumas atividades que já tenham sido retomadas?

Já retomou o Português para Estrangeiros, que tem imensa procura, embora sejam apenas ações de aprendizagem e não uma formação certificada. O Clube de Leitura manteve-se porque, com a pandemia,

passou a funcionar online e neste momento as pessoas têm alguma dificuldade em voltar às sessões presenciais. Já tentámos fazê-lo, mas as pessoas preferem ficar em casa, é mais cómodo.

Por outro lado ganhamos novos participantes, que não residem em Lisboa.

Além disso, estamos disponíveis para aceitar as propostas da comunidade como sejam apresentações de livros, exposições ou outras iniciativas.

 

O Vidas e Memórias de Bairro continua suspenso.

Continua. Essa atividade começou aqui na biblioteca. Eu, uma colega que é socióloga e outro colega já tínhamos alguma experiência de trabalhar com pessoas mais velhas e tínhamos percebido que aqui era importante, mas muito difícil, trazê-las à biblioteca.

Achavam que a biblioteca não era para elas e muitas não tinham hábitos de leitura. Quando mudámos das antigas instalações para estas e ficamos vizinhos do Centro de Dia decidimos que era altura de fazer alguma coisa.

Iniciámos estas oficinas comunitárias, em que nos encontrávamos todas as semanas, às sextas-feiras, e convidávamos as pessoas mais velhas, que viviam na freguesia há mais de 40, 50 anos, para nos fazerem um levantamento do património da freguesia.

Este projeto foi muito importante, porque teve também a ver com o combate à solidão, e foi-se espalhando. Neste momento, decorre noutras bibliotecas da rede. Nós, a partir de setembro, outubro, vamos retomar.

A pandemia obrigou-nos a parar e com a pandemia perderam-se muitos utilizadores do Vidas e Memórias.

Em concreto, como é que se desenrolava o projeto?

Começámos por apresentar um conjunto de temas que depois as pessoas escolhiam. Em cada uma das oficinas comunitárias era debatido um tema e nós íamos tomando notas do que as pessoas diziam.

Essas notas serviam para depois elaborarmos entrevistas que ficassem registados. Fizemos um conjunto de vídeos das entrevistas em que as pessoas falavam dos temas mais importantes das oficinas, mas também da sua própria vida.

Os primeiros vídeos foram feitos com a prata da casa, depois contratámos uma empresa. Neste momento, têm muito mais valor porque a maioria dessas pessoas já partiram e há um ditado africano que diz: velho que morre, biblioteca que arde. Penso que é assim.

Aconteceu-nos. Tínhamos algumas entrevistas combinadas que não aconteceram por causa da pandemia, as pessoas partiram e acabou.

 

O que nos mostram estas entrevistas?

Primeiro, mostram-nos a evolução da própria freguesia e como há assuntos que são transversais a toda a cidade, pode-se ver a evolução de toda a cidade através dessas entrevistas.

 

As atividades para as famílias são uma aposta ganha

 

Quem vem à biblioteca hoje em dia?

É muito difícil dizer quem são os nossos utilizadores. As crianças, vêm com as escolas durante a semana, e com as famílias, porque em todos os sábados em que estamos abertos, temos atividades para famílias, intercaladas entre as crianças mais crescidas e as mais pequenas.

E isso já está ganho. Ao final do dia, vêm com os pais escolher os livros para levarem para casa. Há outra realidade que começa a vislumbrar-se, que são os pais que também utilizam a biblioteca como local de encontro,

e no final da tarde muitas mães, depois de irem buscar os filhos à escola, passam pela biblioteca para conversarem enquanto as crianças exploram os livros e brincam.

No que toca aos adultos, os que ficam aqui são essencialmente estudantes e desempregados. Depois temos os que vêm buscar e trazer livros. Com a pandemia os idosos deixaram de vir e perdemos algum público, porque deixámos de ter jornais em papel.

Temos online, mas não é a mesma coisa. As pessoas perguntam quando é que voltamos a ter jornais em papel. Penso que isso foi uma perda significativa. Estamos a tentar resolver porque os jornais são o mote para muitas pessoas virem à biblioteca. Vinham ler o jornal, encontravam amigos, conversavam, levavam livros.

Outra coisa que também atrai são as ofertas de livros. Temos ofertas de livros que não servem para o espólio, porque já temos muitos, e então são oferecidos aos utilizadores e isso atrai muitas pessoas.

 

Há livros mais procurados?

Depende, é por fases. Há um tipo de livros que sai com muita facilidade, que são os livros de autoajuda. A ficção, é o que sai mais, os romances.

E agora, as edições com vários volumes saem muito porque as pessoas querem ler as histórias até ao fim. Mas sempre ficção.

 

De onde vêm os livros?

As bibliotecas de Lisboa são beneficiárias do depósito legal. A Biblioteca Nacional recebe um determinado número de exemplares e depois distribui.

O depósito legal às vezes é uma mais-valia, outras vezes é um problema porque como se produz muita coisa, nem sempre é de boa qualidade, e às vezes chegam às bibliotecas documentos que não interessam.

Mas quando são novidades, saem e são importantes. Com a pandemia, houve uma política da Câmara de Lisboa para ajudar as pequenas livrarias da cidade.

Houve um investimento muito grande em documentação e, em 2021, chegou uma quantidade significativa de documentos que foram selecionados pelos bibliotecários.

Cada biblioteca selecionou uma determinada temática dentro das novidades editoriais e por isso as bibliotecas, atualmente, têm muitos livros novos. Também vêm por oferta.

 

As bibliotecas de Lisboa colaboram entre si?

Existe uma grande colaboração. Um serviço que funciona muito bem na Rede BLX é o empréstimo intra bibliotecas, ou seja, não importa que a Penha de França não tenha uma determinada obra porque se ela existir noutra biblioteca e o utilizador precisar dela,

nós pedimos e ela é enviada para aqui. Há também a chamada coleção flutuante, por exemplo, se um documento da biblioteca X é requisitado na biblioteca Y podemos fazer com que fique na biblioteca Y durante um período mais alargado para poder ser consultado.

Somos uma rede e funcionamos como tal.

 

O mundo impresso, representado no livro, foi muitas vezes dado como morto. Acha que o livro, a prazo, está condenado?

Acho que não. O digital está a avançar, mas o papel vai continuar. Vai haver pessoas que só leem livros digitais, já há, é mais cómodo. Agora, o papel vai ficar sempre: é o cheiro, o manusear, é completamente diferente, é todo um ritual diferente. Agora, a leitura pode ser feita de qualquer forma.

 

E relativamente à procura da informação através da internet, das redes, em detrimento dos livros. Isso preocupa-a?

Preocupa-me se não for feita de forma orientada, mas é também para isso que está cá o bibliotecário, para dar essa orientação.

 

E dão-na?

Claro. O “Doutor Google” tem lá tudo, mas tem muita coisa incorreta, incompleta. Nós, os bibliotecários temos esse papel, o papel de fazer chegar a informação correta e precisa. Isso acontece cada vez mais,

mas ainda temos que apostar muito na literacia digital e ajudar os utilizadores a pesquisarem aquilo que realmente precisam e não o que aparece.

 

As pessoas não valorizam o que é gratuito

 

As bibliotecas podem ser excelentes locais de diversão e, além disso, são gratuitas, acha que são suficientemente aproveitadas?

Às vezes não. Nós temos tendência a só dar valor às coisas quando não as temos. Além disso, as bibliotecas, pelo facto de serem gratuitas, são menos valorizadas.

Quando dizemos às pessoas que podem vir buscar um livro, levá-lo para casa, lê-lo, as pessoas nem sempre valorizam.

Também é preciso que nós divulguemos mais a nossa existência e aquilo que fazemos chegar a um tipo de pessoas que não são sensíveis à importância da biblioteca e dar-lhes a conhecer que têm um recurso que é gratuito.

Por outro lado, uma das coisas que eu noto é que valorizamos mais aquilo que pagamos, quando é gratuito, temos tendência a desvalorizar.

Por exemplo, as pessoas inscrevem-se para uma atividade, como não pagam, não aparecem e não dizem nada. Se pagassem não faziam isso. Também ainda há quem ache que se é gratuito, não interessa.

É um risco que corremos. Mesmo assim, acho que deve continuar a ser gratuito.

Os níveis de leitura em Portugal são muito baixos e há muitas pessoas que culpam o preço dos livros.

 

No entanto, não vêm às bibliotecas. Como é que explica isso?

Há muitas pessoas que gostam de comprar os livros porque acham que ter livros em casa lhes dá poder, estatuto. Hoje em dia, como os livros são caros, ocupam espaço,

criam pó, são pesados, penso que essa ideia está um pouco mais diluída, mas ainda há alguma dificuldade em vir buscar livros. Os empréstimos caíram muito, mas penso que

estão a retomar e nós alargámos o tempo de permanência – que agora é um mês renovável – para incentivar a procura.

A Biblioteca da Penha de França tem o problema de estar um pouco escondida, num prédio de habitação, sem qualquer sinalética exterior, e isso dificulta a vinda das pessoas.

Há pessoas que moram aqui e não sabem onde é a biblioteca. Falta-nos divulgação.

Na Ucrânia, os bibliotecários criaram um movimento de luta contra a propaganda russa, tentando explicar o que se está a passar no seu país à opinião pública mundial através das redes sociais.

 

Os bibliotecários, pelas funções que ocupam, têm também responsabilidades políticas e sociais?

Acho que têm imensas e que as bibliotecas têm que ser espaços com os quais a comunidade perceba que pode contar.

Os bibliotecários ucranianos fizeram um trabalho excelente porque conseguiram transformar as bibliotecas em abrigos, cuidaram da população, em especial das crianças para que elas se distraíssem e pensassem menos na guerra.

Acho que temos esse contrato de responsabilidade, temos que mostrar que somos importantes e estar abertos às necessidades da comunidade.

 

Os livros são perigosos, no bom e no mau sentido. Alguma vez recebeu protestos sobre a presença deste ou daquele livro na sua biblioteca?

Já aconteceu com um livro infantil “Diário de um Banana”. Estava uma turma do 1º ciclo na biblioteca, um miúdo foi buscar o livro para levar para casa e a professora não deixou porque, segundo ela, aquele livro só o ensinava a portar-se mal.

Tivemos outra situação em que uma criança levou um livro para casa e a avó veio devolve-lo, porque achou que a criança não o podia ler.

Em relação a livros de adultos, não.